22 de mar de 2009

RACIONALIDADE E EDUCAÇÃO JESUÍTICA NA EDUCAÇÃO DOS INDIGENAS BRASILEIRO



A racionalidade jesuítica na educação dos índios brasileiros (século XVI)


Introdução
Muito se tem escrito sobre a atuação catequético-educacional dos padres da Companhia de Jesus no Brasil. De fato, não é necessário um esforço muito considerável para admitir a importância daqueles missionários para a formação cultural brasileira, em especial no âmbito da educação. Durante o espaço de pouco mais de duas centenas de anos, o Brasil respirou a presença jesuítica a ponto de ser praticamente impossível
falar-se em Brasil-Colônia sem fazer qualquer referência a eles. A novidade que este artigo se propõe trazer é o estabelecimento da relação entre a prática missionária
jesuítica e uma racionalidade que se foi conformando à medida do enfrentamento de
novas situações e que passou a balizar ações futuras.
O ponto de partida é o fato de que a prática missionária jesuíta obedeceu, no
Brasil, a prioridades, estratégias e táticas, as quais, por sua vez, tiveram uma dupla orientação: por um lado o arcabouço cultural, de fundamentação teológico-filosófica escolástica e reformista; por outro, a criatividade necessária para enfrentar os novos desafios, experienciá-los, julgar a eficácia das respostas e estabelecer normas que deveriam ser seguidas dali em diante.

Nesse sentido, a racionalidade é aqui trabalhada como um conceito multifacetado e em construção. Da mesma forma que a Companhia de Jesus é histórica, sua racionalidade também. Do contrário há o risco de se cair num equívoco de atribuir aos jesuítas uma razão que lhes fosse anterior, e que se tivesse plasmado indiferentemente às suas personalidades. A racionalidade jesuítica foi, em grande medida, construída de forma intencional a partir da prática e, então, passou a modelar o que se queria dos jesuítas no futuro. As Constituições da Companhia de Jesus e o Ratio Studiorum são dois dos principais documentos jesuíticos e que servem, aqui, como exemplos de uma racionalidade que se construiu, em boa medida, com o tempo. As Constituições, que estabelecem as normas de vida do irmão e do padre jesuíta, vieram à luz somente em 1556, ou seja, 22 anos depois da fundação da nova Ordem religiosa. O Ratio, por sua vez, só se tornou oficial em 1599. Em ambos os casos a demora foi intencional, pois se queria testar os documentos na prática das províncias jesuíticas para que, confirmando o necessário e rejeitando o ineficaz, se tornassem reflexos praticamente perfeitos da forma de ser jesuítica.

Esteremos uma conexão com a formação da racionalidade própria daquela Ordem religiosa. Para alcançar a meta desejada, dividiuse o texto a seguir em três partes, numa tentativa de estabelecer um caminho didático para expor o tema.
Num primeiro momento, apresentam-se as estratégias e práticas missionárias catequético-educativas dos jesuítas para com os gentios brasileiros. Em seguida, fazse uma discussão acerca da formação da racionalidade jesuítica em termos da tradição escolástica e da Reforma Católica. E, num terceiro momento, a racionalidade é trabalhada no que diz respeito ao que a formou num sentido mais prático, destacando o processo de adaptação tão bem definido e empreendido pelos padres jesuítas. A conversão dos gentios brasileiros O objetivo da atuação jesuítica junto aos índios no Brasil foi o de convertê-los. Transformar os gentios selvagens em cristãos, ou reduzi-los ao cristianismo, representava inseri-los na cultura ocidental, torná-los participantes da religião que era advogada como única verdadeira, era civilizá-los com rei e lei, era fazê-los, enfim, súditos portugueses, sujeitos às regras temporais e espirituais que isso representava, e, do ponto de vista jesuítico, fazer cristãos aos índios era propiciar-lhes a possibilidade da felicidade eterna por meio da salvação de suas almas. Converter significava tudo isso. A concepção, própria da época e arraigada nos jesuítas, de que a conversão ao cristianismo dos povos gentios significava levar a felicidade para eles, na medida em que poderiam, a partir daí, salvar suas almas, foi apresentada, de forma quase dramática, por Francisco Xavier, em carta escrita em 1544, de Cochim, para os companheiros em Roma. Xavier (1987, p. 106) escreve da região das Índias, mas expressa o que se deu, posteriormente, no Brasil. Na carta ele relatou que a vontade era escrever, ou mesmo ir para a Universidade de Paris, pedindo que os estudantes se dedicassem mais à salvação das almas dos gentios nas Índias, em vez de se preocuparem tão-somente com os estudos e as dignidades eclesiásticas: É um grande número de novos cristãos que se priva de se fazer nestes lugares, pela falta de se ter algumas pessoas que se consagrem a piedosas e santas coisas. Saibam
que tenho a idéia de me ir aos lugares onde vocês moram e estudam, para gritar lá como um homem que perdeu o juízo, e sobretudo na universidade de Paris; eu direi
na Sorbonne àqueles que são mais da ciência que devem se preparar para ir fazer
fruto: “Quantas almas são impedidas de ir para a glória e vão ao inferno por negligência de vocês”. Dessa forma, como eles estudam a ciência, eles estudarão também a conta que Deus nosso Senhor os demandará, da ciência e do talento que lhes deu, muitos dentre eles seriam tocados, eles recorreriam aos meios e aos exercícios espirituaiscapazes de lhes fazer conhecer e sentir em suas almas a vontade divina.
Para alcançar seu escopo, os jesuítas se utilizavam, do ponto de vista especificamente da religião, do batismo em massa, seguido da catequese. O batismo
era a porta de entrada no mundo cristão, condição para que aquelas pessoas pudessem
ter acesso à religião, iniciando o caminho para a salvação de suas almas. Ao mesmo
tempo, o batismo tornava-se a porta de entrada, também, para o mundo ocidental e
sua respectiva cultura.
São inúmeros os relatos encontrados nas Cartas jesuíticas acerca da necessidade
e importância do batismo, a ponto de serem contabilizados. Já em 1549, escrevendo
ao seu amigo de Coimbra, Dr. Navarro, Manoel da Nóbrega (1988, p. 95) demonstrou
que o batismo significava o início de mudança de vida. Depois de narrar uma verdadeira batalha verbal com um pajé, vangloriou-se de que o sinal claro da derrota do seu oponente foi o seu batizado: “Finalmente ficou elle confuso, e fiz que se desdissesse de quanto havia dito e emendasse a sua vida, e que eu pediria por elle a Deus que lhe perdoasse: e depois elle mesmo pediu que o baptisasse, pois queria ser christão, e é agora um dos cathecumenos.” Em outros relatos são apresentados números exatos dos que foram conquistados, pelo batismo, para as hostes cristãs. As cartas jesuíticas, principalmente aquelas de edificação,1 retratavam a vida dos missionários, seus desafios e, principalmente, suas vitórias. Dentre os sucessos conquistados, os batismos dos gentios eram muito comemorados e, por isso mesmo, compartilhados. Como exemplo, veja-se o relato do padre Antonio Pires, que, escrevendo para os companheiros dePortugal, em 1558, apresentou os números do progresso dos batizados: [...] Começam a solemnidade nos novos catechumenos, porque na entrada da missa, revestido do Padre com as vestiduras sacerdotaes, benzeu a egreja e acabada abençam começou o bautismo solemne, em o qual baptisou 84 innocentes. ... Logo o dia da Visitação se bautisaram trinta e tantos; ao domingo, dahi a oito dias, se bautisaram vinte e tantos, que são por todos 144. [...] (Navarro, 1988, p. 227). Francisco Xavier, nas missões nas Índias, antes, portanto, das missões jesuítas no Brasil, preconizava a necessidade de batizar em massa as crianças e, de preferência, não deixando nenhuma sem o sacramento. Batizar as crianças era uma forma,Inacio de Loyola definiu que as cartas deveriam ser de dois tipos: as de edificação e as de negócios ou particulares. As de edificação eram reproduzidas, espalhadas por todas as províncias jesuíticas e entregues para as comunidades católicas na Europa, sendo, inclusive, lidas em sermões de missas. Já as cartas de negócios eram restritas à organização administrativa dos
jesuítas e tratavam de questões relativas ao cotidiano administrativo das casas, colégios, fazendas e de assuntos particulares. ncontrada na prática e avaliada como positiva, de garantir o sucesso mais duradouro do cristianismo, tendo em vista que muitos gentios adultos que se batizavam acabavam por retornar às suas práticas religiosas anteriores. Numa carta a Francisco Mansilhas, seu auxiliar, escrita em 1544, Xavier (1987, p. 116) faz a seguinte recomendação: “faça muita diligência em batizar todas as crianças que nascem e lhes instrua da forma que eu tenho dito”. O passo seguinte após o batismo era a catequese, ou seja, a confirmação da conversão e a modelagem do ser cristão. Neste processo se dava a transformação religiosa e cultural do gentio em cristão e em súdito do rei português. Na catequese eram passados ensinamentos relativos à nova religião, aos seus fundamentos, objetivando criar almas devotas e fiéis ao novo deus e à sua igreja. Na catequese os índios eram domesticados e levados a considerar errados aspectos anteriores de suas vidas, como o canibalismo ritual, o fato de andarem nus e terem várias uniões sexuais (casamentos). A catequese cimentava a mudança religiosa, cultural e política ocorrida com os indígenas brasileiros.
O processo catequético dirigido aos índios se dava em ambientes próprios, que
nós podemos chamar de escolas. Antonio Franco, ao apresentar uma biografia de
Nóbrega, afirma que uma das primeiras iniciativas daquele jesuíta foi a construção de
seminários para as crianças índias: [...] uma das obras que o padre Nobrega fez neste tempo foi um Seminário, em que se criassem meninos filhos dos Indios. Os Padres com suas mãos fizeram de barro as casas em que os agasalhar. Alli eram ensinados a ler, escrever e contar, ajudar á missa
e a doutrina christã (Nóbrega, 1988, p. 36).
Em 1559, o irmão jesuíta Antonio Rodrigues, em missiva a Nóbrega, referindose
ainda à cidade de Salvador, afirma: “já temos nesta casa pela bondade do Senhor
mais de duzentos meninos Indiosinhos, que continuamente se occupam na doutrina e
cousas pertencentes á Fé” (Navarro, 1988, p. 263).
Basicamente, a rotina da catequese se pautava pelos ensinamentos ministrados
pelos padres acerca da doutrina cristã e do comportamento adequado a essa doutrina.
O padre Ruy Pereira, escrevendo da Bahia em 1560, apresentou uma interessante
síntese do cotidiano da catequese: A ordem da doutrina é esta na igreja: em amanhecendo tangem todos os dias, e vêm as moças solteiras, posto que muitas das casadas vem com ellas, sem as constrangerem; acabada sua doutrina, vêm os moços das escolas, aonde estão em ler e escrever e doutrina duas horas pouco mais ou menos, e as moças com as mais mulheres se vão despois de sua doutrina a fazer os seus serviços, e a fiar para terem panno com que se cubram, das quaes muitas andam já cobertas. E os moços, acabada a escolas, se vão a pescar pera se manterem, porque é esta gente tão pouca solicita do crastino [do amanhã], que o dia que o não caçam não o tem ordinariamente. [...]

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